Eu gostar de manga não é uma crítica ao seu gosto por laranja

O que funciona pra mim pode ser que não funcione para você. Somos todos livres para vivermos nossas vidas como quisermos. Eu não sou melhor que você. Minhas escolhas não são melhores que as suas.
Então, sintam-se livres para comemorar o dia dos namorados, essa data criada por um publicitário baiano pra alavancar a venda de um mês fraco, mas que, como tudo na vida, tem o significado que colocamos nele e não é menos real por causa disso.
Mas, pra mim, sinceramente, hoje é só quarta-feira.

Para onde está indo seu relacionamento?

A sociedade nos enfia muitos dogmas na cabeça. Que só podemos amar uma pessoa. Que quem ama sente ciúmes. Ou que as relações têm que sempre andar pra algum lugar, avançar, atingir metas, “evoluir”.
Quando me sinto amando muito, às vezes tenho esses rompantes de “levar o relacionamento para a próxima etapa”.
Mas essa ânsia não resiste a três segundos de reflexão.
Afinal, quais são essas metas? Morar junto, noivar, casar, ter o primeiro filho, comprar uma casa?
Nem eu nem ela queremos nada disso. Nada disso nos parece minimamente desejável.
Confesso que ainda tenho dentro de mim essa vontade súbita de “ir a algum lugar com o relacionamento”, mas, quando olho pra frente, não existe nenhum lugar para onde eu queira ir.
Já estou no melhor lugar onde poderia estar.

Hoje é só mais uma quarta-feira



Já andaram me perguntando o que vou fazer no Dia dos Namorados.
Bom... nada: não tenho namorado. (Até que porque gente não se tem.)
Mas existe sim uma pessoa que eu amo.
Essa pessoa é um ser independente, livre para beijar (e jogar vídeo game), transar (e cozinhar), amar (e fazer ioga) com quem ela quiser.
Ela não tem compromisso algum comigo, com exceção dos compromissos fluidos que decorrem da amizade e do afeto compartilhados.
Ela me acompanha em muitos momentos e não em outros.
Quando está comigo, é sempre lindo.
Quando não está, duas coisas acontecem:
Em primeiro lugar, sou feliz de outras maneiras, com outras pessoas, fazendo outras coisas. Embora eu a ame, não preciso dela para ser feliz. E nem ela de mim. Isso é libertador e mágico.
Em segundo lugar, confirmo ainda mais que a amo. Sinto falta das suas gordurinhas protuberantes do quadril, do seu jeito de bizarro, de sentir a respiração até ela dormir, de ser acusado de romantismo e frescura quando escrevo textos como esse.
Então, quando ela escolhe voltar, sem que nenhum compromisso ou obrigação nos una, quando poderia estar em qualquer lugar fazendo qualquer coisa com qualquer um, eu me sinto amada, mesmo que ela negue.
(Não acredito no que as pessoas dize, acredito no que elas fazem. Se ela diz que não me ama mas se comporta como se amasse, então, na prática, na realidade, do modo mais concreto possível, ela ama. E isso vale pra tudo.)

Priscilla Cardoso